O valor da presença

Dezembro 07, 2016

O valor da presença

Regularmente, tenho que vir para Ariquemes, estado de Rondonia, visitar nossa fábrica e nossos fornecedores de madeira. São cerca de 6.000 km de viagem noturna (dois aviões e uma van) para chegar no meio da floresta amazônica - demora menos e é mais agradável chegar na Itália, por exemplo, para reuniões com os nossos parceiros arquitetos.

Mas então… por que? Não dá para resolver por telefone? Por e-mail? Só em parte, e é o que faço no dia a dia quando fico em São Paulo. Mas a presença tem valor. Primeiro: tem valor para as pessoas. E Acierno é uma empresa que faz mágica porque é feita de pessoas que sabem fazer mágica. Mas os mágicos de São Paulo e os mágicos de Ariquemes, salvo raras exceções, se conhecem apenas por telefone: o elo de conexão presencial sou eu. E é importantíssimo manter os dois lados juntos, empurrando na mesma direção, construindo o mesmo sonho, compartilhando ambições, satisfações e dicas de feitiços.

Segundo: a presença tem valor para a madeira. Sim, eu sei que já escrevi a respeito: auditamos presencialmente os manejos sustentáveis de madeira da região e isso nos permite dormir serenos sem nos preocupar se a madeira que compramos é legal ou não - sempre é, por definição. Mas não é só uma questão de ética: tem uma questão de qualidade, também. Ou acham que móveis de design de luxo se fazem com qualquer pranchado? Claro que não! É necessário escolher a dedo as toras, seguir serragem e secagem, separar e escolher qual madeira vai servir para qual peça… e isto não tem Skype ou FaceTime que adiante, é uma parte inevitável do trabalho de um marceneiro apaixonado. Na foto, de hoje a tarde, a checagem dos nossos estoques de madeira de lei no sistema de gestão do Ibama.

Terceiro: a presença tem valor para inovar. Como assim? Não são os arquitetos que desenham e assinam? O que que isto tem a ver com suas viagens? Tem tudo a ver. Nossos móveis de design não nascem apenas da ideia criativa de um arquiteto: eles se desenvolvem no diálogo entre arquitetos e marceneiros. O que eu faço é fundamentalmente intermediar, conciliar, explicar dos dois lados, e frequentemente traduzir - é raro que um marceneiro em Ariquemes, Rondônia fale a mesma língua de um arquiteto em Veneza. Móveis flexíveis e versáteis como os da linha Acierno requerem desenvolvimento e prototipagem longos e faseados, e esta é a parte mais interessante e mais divertida do meu trabalho. Porque no final de um desenvolvimento de produto, quando consigo fazer bem meu papel, o arquiteto em Veneza acolhe ideias do marceneiro de Ariquemes, e o marceneiro de Ariquemes aprecia o design minimalista de uma mesa lateral idealizada em Veneza.

Bom, e depois tem uma pequena questão de gosto pessoal. Vocês têm ideia de quanto mais gostoso fica um churrasco por aqui, em baixo do pé de manga no quintal da fábrica?