O valor da curiosidade

Outubro 16, 2016

O valor da curiosidade

Entre as palavrinhas mágicas que as empresas costumam usar em suas comunicações, “inovação” ocupa um lugar especial. Junto com “ética” e “meritocracia”, é uma daquelas expressões que todo gerente de marketing ou de recursos humanos acha indispensável usar, principalmente em empresas que não inovam, ignoram qualquer forma de ética e incentivam a mediocridade: quase como se fosse apenas uma questão de pronunciar fórmulas mágicas com suficiente intensidade e frequência para que seu significado se torne real. Porque não tentar com Wingardium Leviosa, então? Vai que os resultados da empresa levitam também.

Eu acho mais interessante, em vez de falar em “ética”, evitar de roubar ou de burlar a lei.

Em vez de comunicar sobre a tal da “meritocracia”, tarefa que ocupa departamentos inteiros nas mais medíocres das empresas que cruzei em minha vida profissional anterior, prefiro pagar bem e promover quem faz bem seu trabalho, e demitir rapidinho quem atrapalha os outros.

E em vez de falar em “inovação”, me divirto mais fazendo coisas novas. Por curiosidade pessoal, mais do que por política empresarial.

Até porque, convenhamos, Acierno é uma empresa que fundamentalmente trabalha em um dos mais antigos setores da história da humanidade. Poucas profissões nasceram antes da nossa: Gilgamesh, Noé e Ulysses, afinal, eram antes de mais nada excelentes marceneiros e carpinteiros. Mas então, como fazer “coisas novas” em um setor velho de dois ou três mil anos?

Vamos deixar de lado por hoje o tema do design, que - assim como a moda - é muito mais questão de estilo e gosto de uma época do que de inovação tecnológica propriamente dita (sim, há exceções, mas não é hoje que vou contar minha paixão pelos irmãos Thonet).

O que dá para fazer, e que adoramos experimentar na Acierno, é aplicar tecnologias contemporâneas à velha profissão do Gilgamesh. E é por isso que fui passar dois dias no meio da floresta, na semana passada.

Viajar até Ariquemes, onde temos nossa marcenaria, já é algo relativamente cansativo. Entrar floresta adentro, mais longe das rodovias e das cidades, é mais cansativo ainda, e em boa medida pouco agradável. Assim, é bem improvável que muitos de vocês consigam ter pessoalmente a experiência de ficar no meio da floresta, onde crescem as arvores que extraímos - de maneira estritamente sustentável e renovável - para fabricar os nossos móveis. Que fazer, então, para satisfazer a curiosidade? Felizmente, existem tecnologias para levar todos vocês para lá, sem ter que encarar a viagem física e o discreto medo de cruzar o caminho de uma jibóia ou de uma onça.

Sim, exatamente: fui testar a filmagem em 360 graus e a realidade virtual no meio de uma floresta nativa, com uns equipamentos novinhos da Samsung. O tempo de aprender como costurar, editar, revisar e montar, e publicaremos estes vídeos. Por agora, vou contar como foi a experiência, ou melhor, as cinco importantes lições que aprendi.

Primera lição: ninguém consegue fazer “coisa nova” sozinho. No Dicionário das Fórmulas Mágicas Empresariais, volumão que em Hogwarts só se encontra na seção restrita da biblioteca, do lado de Magick Moste Evile, isto se chama “Open Innovation”. Um pouco arrependido dos meus anos de magia negra, hoje prefiro dizer que chamei duas empresas amigas para fazermos juntos - a Samsung, justamente, que fabrica câmeras, celulares e óculos 360; e a Amata, que compartilha conosco a ambição de tratar bem as florestas e ainda assim fazer dinheiro, e que gerencia um dos mais cuidadosos manejos sustentáveis de madeira nativa do Brasil (e, pelo que me consta, do mundo inteiro). Sem elas, nada de vídeo imersivo. Mas em geral: é só conversando e cooperando que surgem ideias novas, porque curiosidade é algo fundamentalmente contagioso.

Segunda lição: pouco importa a sofisticação da tecnologia, o software, a eletrônica, a ótica… 90% do desafio acaba sendo prático - o de fazer acontecer mesmo. Ou acham que manter firme uma filmadora 4K em cima de uma camionete numa estrada de terra esburacada seja apenas um clic no app de controle? O verdadeiro curioso absoluto, pai e modelo de todos nós engenheiros, é e sempre será o McGyver. Me pergunto como serão os engenheiros da próxima geração, que em vez do McGiver aprendem com o Iberê do Manual do Mundo.

Terceira lição: resolvidas as questões mecânicas com uma boa dose de gambiarras, o resto é fácil mesmo. Faz clic, e aquela bola de beisebol cuida do resto. Outro clic, vai pro celular e já tem cara de 360. Ou seja: pode focar em pensar em que fazer, e não em como fazer.

Quarta lição: a tal da bola de beisebol é uma espécie de Olho de Sauron, e depois de uns takes perdidos começa a ficar um pouco inquietante - a maior preocupação cessa de ser “será que a luz está boa?” e passa a ser “onde é que vou conseguir me esconder esta vez, para que essa assombração redonda não consiga me enquadrar?”. Chega a dar pesadelo. Solução 1: não se esconder, ficar de boa com a Sauron Ball, e participar à filmagem como ator e diretor ao mesmo tempo, à la Nanni Moretti ou Woody Allen quando era mais jóvem. Solução 2: correr para se esconder atrás de uma castanheira centenária, caso tenha uma a disposição nas vizinhanças. O defeito da castanheira centenária é que ela não se desloca facilmente de um take para outro.

Quinta lição: quando o Bill Gates e o Warren Buffett tiverem terminado de erradicar a malária do mundo, vou escrever uma carta para pleitear que considerem com carinho investir na pesquisa e desenvolvimento de baterias, verdadeira praga da humanidade contemporânea. Porque quando se está 80 km mata adentro, a luzinha vermelha da bateria que vai acabar é uma tragédia. Solução: ficar amigo do manobrista da enorme e maravilhosa pá de levantar toras inteiras, porque ele passa o dia carregando caminhões e ouvindo rádio, e a rádio dele tem uma tomada USB.

Parece pouco? Talvez seja. Mas inovação não é necessariamente revolução. Pode ser uma pequena mudança, um jeito novo de olhar. E mesmo as verdadeiras, grandes revoluções podem começar por pequenas curiosidades.