O valor de um não

Março 09, 2017

O valor de um não

Tinha resolvido ontem de não fazer comunicação nenhuma ao redor do Dia Internacional da Mulher. Talvez por ter crescido com uma mãe que achava fundamentalmente hipócritas as flores um dia por ano. Ou talvez por achar que marketing oportunístico não é a praia da Acierno: falamos de sustentabilidade o ano inteiro, não apenas no World Earth Day, e respeitamos as mulheres o ano inteiro também.

Mas aí voltando para casa vi o discurso presidencial sobre o que ele considera o papel das mulheres na sociedade. Ora, eu não gosto de falar de política num contexto de empresa: nosso trabalho é fazer móveis, e se possível, vende-los, inclusive para gente de opostas visões políticas.

Mas tem temas que merecem e precisam de um posicionamento claro, de um "não!" bem forte, e este certamente é um dos mais importantes.

Não, Presidente, não concordamos nem um pouco. Nem eu, nem todos os funcionários e parceiros da Acierno. O papel das mulheres na economia não é indicar desajustes de preços no supermercado.

Acierno existe e funciona graças a mulheres maravilhosas: Joselma e Naira, na nossa equipe em São Paulo e Ariquemes; Luciana, Cintia, Marcela e Dayse, na contabilidade, que todo dia garantem que eu não faça aqueles erros inocentes de gringo que podem custar o fluxo de caixa de um mês; Milene, Dani e evidentemente Denise, sem as quais poucos teriam ouvido falar de nós; e, claro, as incríveis Teresa, Valentina, Maria Fernanda, Melina, Iraima, Debora, Mari, Simone - que assinam um bom 60% do nosso catálogo; e ainda, nossas duas investidoras, que além do dinheiro que apostaram conosco contribuem regularmente suas visões, ideias, direcionamentos, estratégias e questionamentos.

Veja, Presidente, estamos muito felizes que essas mulheres tenham escolhido uma vida um pouco diferente da que a Marcela quis (e que respeitamos, porque cada escolha é uma escolha). Sem elas, simplesmente não existiríamos. Não pretendo dizer que o nosso faturamento seja tão determinante para a economia brasileira (mas vamos chegar lá um dia, não se preocupe) - mas suspeito que não sejamos a única empresa com esta mesma visão.

Sabemos muito bem que no nosso setor tem gente que pensa o contrário e que acha que colocar na foto uma modelo pouco vestida seja o jeito certo para melhorar o visual de uns móveis em aço francamente improváveis. Nós, não. Somos homens e mulheres que acham que um olhar, um caráter ou uma ideia, em geral, têm mais sensualidade do que um peito jogado lá (e oh, sabe o que? até o calendário Pirelli, este ano, tem mais caráter do que peitos). Alguns clientes potenciais querem escolher em função do peito na foto? Boa sorte. Os nossos clientes, eles, tendem a olhar mais o produto.

Também não concordamos de que a educação dos filhos seja uma tarefa eminentemente feminina. Em nome dos homens que trabalham na Acierno, lhe informo que temos muito orgulho em sabermos trocar fraldas, consolar um choro, preparar um jantar, ter uma conversa difícil quando necessário. Faz parte da nossa dignidade masculina, além do nosso dever em casa. Ah, os afazeres domésticos! Sim, Presidente, nisto tem razão: além dos afazeres domésticos, agora há mulheres que também trabalham fora de casa. Mas deixa acrescentar algo importante: esse equilíbrio entre arrumar a casa e ir ao trabalho é coisa de homem também. De muitos homens, por sinal.

Não, Presidente, não. O senhor tem até direito de aplicar este tipo de mentalidade em seu lar, caso a sua esposa concorde, como parece. Mas pelo papel que reveste, tem o dever de pelo menos se informar sobre os avanços da humanidade nas últimas décadas.

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Carlo

Na foto: Carosello, por Teresa La Rocca. Parte da exposição "W. Women in Italian Design" na Triennale di Milano.